É interessante constatar que foi preciso uma empresa de streaming de alcance global, como a Netflix, para colocar o folclore brasileiro novamente nas rodas de conversa do nosso país. A série Cidade Invisível, criada e dirigida pelo premiado Carlos Saldanha, estreou no começo de fevereiro deste ano em 190 países e ficou entre as mais vistas da plataforma em mais de 40 deles, por várias semanas. Figuras como O Saci-Pererê, a Iara, a Cuca e o Curupira invadiram as telas e o imaginário das pessoas do mundo inteiro mostrando a potência e o alcance das histórias de tradição oral brasileiras.

Em um Rio de Janeiro do século XXI assistimos, fascinados, o Saci com uma bandana na cabeça e uma perna mecânica, manter intactas as suas características mais autênticas, como a traquinagem e a esperteza para resolver qualquer problema. A Cuca é dona de um bar e conta com o Tutu Marambá como seu fiel escudeiro. As criaturas que atemorizaram o sono das crianças desse país por séculos, aparecem agora tentando livrar a natureza dos seus predadores. Nessa causa comum que é a preservação do nosso patrimônio imaterial – o folclore – e do nosso patrimônio ambiental, somos todos folclore. Eles e nós, humanos, buscamos as mesmas coisas: o direito a usufruir da nossa cultura, de conhecer a nossa história e de conservar as tradições que nos ajudam a compreender quem somos.

Em 2017 tive o privilégio de lançar uma obra inédita aqui no Brasil, o Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro (FTD Educação/Edições Sesc), que apresenta um conjunto de 141 personagens do folclore brasileiro e suas histórias maravilhosas. Lá, em meio aos seres fantásticos, às assombrações, às figuras traquinas e à toda sorte de animais incríveis, sendo que a maior parte deles nunca havia sido retratada imageticamente antes, os leitores brasileiros encontram figuras conhecidas do nosso imaginário como o Boto ou o Negrinho do Pastoreio e outras quase desconhecidas, como o Corpo Seco ou o Arranca-Língua. Desde o lançamento não me canso de receber comentários e depoimentos de como as pessoas se encantam com esse tesouro ainda encoberto. Histórias que foram silenciadas porque revelam esse caldo cultural do qual todos fazemos parte e que, muitas vezes, descortinam um passado que traz informações que preferíamos negar ou esconder.

O Abecedário serviu de inspiração e fonte de pesquisa para a elaboração do roteiro de Cidade Invisível e como nada é por acaso, ainda mais quando se trata desses seres fantásticos, esse encontro do livro com a série propiciou que uma audiência mundial imensurável percebesse como é universal o desejo do ser humano de contar histórias, de se ver refletido nas personagens que delas fazem parte e perceber que o que nos une são sentimentos, emoções e percepções que são os mesmos, sejam de que lugar forem, falando qual língua seja. Somos todos folclore.

Estamos vivendo um momento completamente inusitado na nossa história em meio a essa pandemia que acometeu o mundo inteiro. De repente, mais rápido do que conseguimos nos dar conta, um vírus passou a ameaçar nossas vidas e tornou-se o nosso grande inimigo, exigindo esforços de toda ordem da raça humana. Como em todas as situações de grande estresse na história da humanidade, nosso instinto é o de procurar respostas para o que nos acontece, buscar soluções para os problemas e compartilhá-las uns com os outros. É aí que as histórias entram em cena.

Como todos sabemos, as narrativas de tradição oral contém um imenso repositório de experiências, das mais variadas – físicas, emocionais, sociais, filosóficas – que são verdadeiras bússolas a nos indicar numerosos caminhos e saídas para situações difíceis. É como afirma uma das maiores autoras brasileiras, Ana Miranda, que escreveu o Posfácio da Coleção Personagens do Folclore Brasileiro (FTD Educação): “Por meio delas, das nossas fábulas, podemos encontrar respostas às perguntas que talvez sejam as mais importantes, por sua desimportância (como diria o poeta Manoel de Barros): Por que alguém faz maldade com outra pessoa? E por que alguém é bom? Por que coisas nossas (ou pessoas) desaparecem para sempre? Por que nos assustamos ao olhar um espelho ou ao ouvir um ruído inesperado? Por que um copo se quebra sozinho na cozinha? Por que novelos de linha ficam de repente tão embaraçados e moscas caem na nossa sopa exatamente quando olhamos para o outro lado? Por que existem outros mundos que mal vemos? Por que o mundo é como é? E, afinal: Por que somos como somos?”

Cidade Invisível e o seu sucesso mundial nos manda um recado dos mais significativos: vivemos em tempos incertos, tempos em que nossas memórias e histórias circulam pelas redes sem um lugar eterno para ficar. Talvez seja necessário observar esses seres fantásticos para lembrarmos que é preciso resistir ao rápido e ligeiro e resgatar o verdadeiro sentido da memória, tão somente para que possamos viver plenamente a vida que nos pertence. Em qualquer tempo e em qualquer lugar.

#somostodosfolclore!

Sobre a autora:

Januária Cristina Alves é Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 60 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira É pesquisadora do folclore brasileiro e da cultura popular e autora do “Abecedário de personagens do Folclore Brasileiro”(Edições SESC/FTD Educação). Também realiza palestras e oficinas para educadores, crianças e jovens, sobre Educação Literária, Alfabetização Midiática e Storytelling.
Para saber mais acesse: www.entrepalavras.com.br.

Buobooks indica: 

Abecedário De Personagens Do Folclore Brasileiro – Januária Cristina Alves 

O Saci-Pererê E Outras Figuras Traquinas Do Folclore Brasileiro – Januária Cristina Alves 

Curupira, Brinca Comigo? – Aloma – Lô Carvalho

Monstronário – Lúcia Tulchinski

Iara – Mauricio Sousa

A Ajuda Do Negrinho Do Pastoreio – Regina Drummond

Mula Sem Cabeça – Mauricio Sousa